quinta-feira, 22 de junho de 2017

MANHÃ SOB GOIABEIRAS



Para Vinícius Siman.


- Aceitai a Jesus, irmão. Aceitai para ter a salvação...
- Olha! Eu não sou cristão. Não por descrer dEle. O que não creio é em cristão... Não tenho dúvida que todos que falam em nome de Deus são inimigos tanto do Pai, quanto do Filho quanto do Espírito Santo. Desculpe. Creio que te ofendi, mas não foi essa a intenção e por isso peço que, se puder, perdoa-me. Mas duvido mesmo.
- Como podeis dizer isto e se achar digno do Senhor Jesus?
- Conhece a obra literária Os Miseráveis, de Victor Hugo? – Pela cara do interlocutor, entendeu que pouco conhecia o livro. – Creio muito mais na ação do Padre, Monsenhor ou Bispo... Não me lembro de qual era o título dele. Bem, apesar de este religioso ser um verdadeiro seguidor de Cristo e de todos lhe pedirem a benção, ele pediu a benção justamente a um ateu porque apesar de não crer em Deus fazia tudo o que Cristo ensinou.
- Acreditas em Deus e não nos que dizem ser de Deus?
- Sim. É só acompanhar os últimos dois mil e dezessete anos para saber que somente coisas ruins fizeram em nome dEle. Dizem coisas lindinhas, mas são apenas falácias. E quando fazem alguma coisa boa é para mascarar as dezenas de coisas ruins que fazem.
- Acreditas na Bíblia?
- Não. Todos os, digamos assim, heróis bíblicos são pessoas malévolas. Por exemplo: Rei Davi. Ele era estuprador, torturador, mutilador, escravagista, traidor, falso amigo e falso religioso. E é o grande, talvez o maior, herói bíblico e um exemplo a ser seguido...
- Não tem isso na Bíblia. É calúnia blasfêmica.
- É claro que se procurar a palavra “estuprador” para se referir a ele não vai ser encontrado, pois a História é sempre feita pelo vencedor... O que será encontrada é a passagem onde diz para uma mulher: “Ou faz sexo comigo ou mato seus filhos”. Isso é estupro. Assim como não encontrará as palavras torturador, mutilador etc. O que vai encontrar são as ações dele. Abraão era casado com a irmã... A Bíblia proíbe relação conjugal entre pessoas do mesmo sexo, mas não se importa com relação sexual entre irmãos... Sabe por quê? Porque não nascem crianças no primeiro. E se não tem crianças não terá como guerrear com as outras tribos e escravizá-los. Ou seja, não é o amor, é a violência, é o ódio que a Bíblia aceita. Vamos um pouco para o Novo Testamento. São Paulo era assassino violentíssimo...
- Mas ele encontrou a luz...
- É, sei. Continuou sendo assassino. E por isso que no cristianismo só tem bandido “convertido”... São Pedro era covarde e duas caras. Falava uma coisa para um e outra para o segundo. Nem mesmo o assassino São Paulo o tolerava... E o pior de tudo nem está nestes exemplos dados. O pior é que, segundo a Bíblia, Deus é um ser infantilizado, com complexo de inferioridade e necessidade de aceitação. É lógico que não vai encontrar tais palavras na Bíblia. É só usar o cérebro que Deus deu para saber que Ele não é responsável por este conjunto de livros que, por ser um conjunto, vou falar no singular: livro.
- Quem é o responsável, então?
- Os responsáveis são os grupos de pessoas que se valem dela para enganar e prejudicar a humanidade.
Um momento de silêncio sob os pés de goiaba no Parque Ipanema e vermelhos olhos pairam sobre Siman e este continua; não sei se percebendo o teor do olhar ou sem se importar.
- Como eu dizia, o pior não é isso que falei de Davi, Paulo etc. O pior é que segundo a Bíblia, Deus é esta criança pirracenta, covarde e com toque de sadismo. Mas eu discordo dela, pois não acredito que Deus seja isso. Pelo contrário, Deus é Amor que somente dá.
- Tu falas que Deus é Amor e isto está na Bíblia...
- Sei disso; está na primeira carta de São João. Mas falo dele, o livro, com conhecimento de causa e não apenas repetindo o que padres e pastores falam...
- O que está na Bíblia, então?
- Sabe a criancinha pirracenta que lamuria quando não gostam dela? “Huuuum, huuuum, tá! Num gosta de mim, né? Num acredita em mim, né? Tô nervosinho. Tô nervosinho. Huuum, huuum. Vou me vingar, viu? Ó, ó!”. E castiga. Castiga porque, segundo a Bíblia, Ele precisa ser aclamado, adorado senão fica chateado e castiga. Mas não castiga a pessoa que O ofendeu. Não, não. Isso exigiria coragem de enfrentar o “oponente”. Ele castiga quem não se pode defender. Quando Rei Davi matou o amigo... – Amigo? Rerrerrê. – E ficou com a mulher dele quem Deus castigou? O criminoso? Não! Ele castigou a criança. Foi a criança que nasceu sem ossos e ficou uma semana em agonia até que morreu.
- Imagina o sofrimento do pai ao ver o filho sofrendo...
- Por estas palavras só posso pensar que você não analisa as coisas. Eu te agrido, mas como sou forte você revida com quem não tem nada a ver com isso. O que me faz pensar que até o Conde de Monte Cristo, personagem do livro de Alexandre Dumas e de Auguste Maquet, é superior a Deus. – Discordo, mas é o que a Bíblia indica –, pois Edmond Dantès desiste de vingar-se porque percebe que para isso muitos inocentes sofreriam também. Então, se Deus queria castigar e/ou fazer arrepender, que punisse o criminoso fortão, não um inocente, uma criancinha indefesa... Outro exemplo: Quando Deus libertou o povo judeu dos egípcios quem ele fez sofrer? Todos, menos o faraó. Matou os animais, as crianças, os escravos, que são tão vítimas quanto os judeus. Mas não atacou o faraó fortão. Só quem estava ou era fragilizado. E assim sucessivamente.
- O homem planta e rega, mas quem faz crescer é Deus. O homem não tem poder para convencer o pecador do seu pecado; isso é tarefa de Deus. Eu não tenho poder pra te convencer. A missão que me foi dado é simplesmente transmitir o Evangelho a todo custo.
- Não! Ninguém vai me convencer que Deus seja este ser horrível e inferior que a Bíblia aponta. E curiosamente, este livro que você se encanta serviu de justificativa para os Europeus causarem tanto dano à África como à América. E quanto a parte “Quem faz crescer é Deus” é isso aí. Disse muito bem. Mas como Cristo falou, e que serve bem aos pregadores de evangelho... Por favor, não me refiro propriamente a você; mas serve, em geral, aos “religiosos”: converte os outros deixando-os ainda piores que os conversores.
- Mesmo com as dez pragas que Deus fez descer naquele império, Ele ainda endureceu o coração do faraó do Egito para se recusar a dar créditos nas palavras de Moises da parte de Deus, resultado no mar vermelho de onde ninguém voltou.
- Veja o ilógico dessa afirmação que me apontou: “Deus endureceu o coração do faraó para este não se converter e assim ser punido”. Segundo a Bíblia, Deus é sádico, ilógico e contraditório. Discordo, pois Deus é Amor que somente dá; mas segundo esta própria passagem que falou, o Senhor é sádico e gosta de atormentar as pessoas. Mas, curiosamente, isso deveria caber ao diabo, não a Deus... O Senhor endureceu o coração do faraó para poder torturá-lo... Em outras palavras, segundo o próprio trecho apontado por você e tirado da Bíblia, Deus se compraz com o sofrimento da maioria para uns poucos poderem gozar a vontade.
- Chega! Dizeis apenas sandices.
- É... E o insano sou eu...
“As nuvens nuvem”, como disse Ferreira Gullar. Sobre os pés de goiaba no Parque Ipanema as nuvens nuvem.


 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às quintas-feiras; e todo domingo no seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. É pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”; autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. É, por segunda gestão, Secretário da ASSABI – Associação de Amigos da Biblioteca Pública Zumbi dos Palmares (Ipatinga MG). Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).


Escrito na manhã de 23 de março de 2017. E trabalhado no dia 20 de maio e entre os dias 20 e 22 de junho do mesmo ano.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Michel Temer abandonado ou Bem Vindos ao Deserto do Real... No Brasil.



Enfiaram uma estaca no peito do vampiro...

Ninguém acreditava muito no julgamento da chapa Dilma-Temer, que seria tutelada pelo amigo do peito do golpista, Gilmar Mendes, afinal o juizeco tinha jantares pessoais com o interventor Michel Temer fora de sua agenda, o seu juízo seria, no mínimo, duvidoso. Mas o áudio relevado na quarta feira foi uma grande reviravolta, de repente o vampiro do Planalto cai e é abandonado.
Sim, Michel Temer caiu, não renuncia de teimoso, mas há de sair em breve, afinal, a elite que o colocou no poder está saindo de sua base, Globo, MBL e diversos outros grupos desonestos e apoiadores do golpe que foi direcionado a democracia.
Após a derrota em 2014, a direita, furiosa por ter sido derrotada pela quarta vez, passa a "encher o saco" da administração Dilma, que fica de mãos atadas em diversos momentos, obrigada a atender as reivindicações da burguesia brasileira, mas de forma relutante, haja visto que temia perder sua base eleitora, a classe trabalhadora brasileira, principalmente das regiões Norte e Nordeste. A elite então precisava de alguém que colocasse a crise econômica nas costas dos pobres, e alguém que o fizesse sem pestanejar.
O ano de 2015 transcorreu de forma violenta, extremismos ficaram patentes, "a ressaca da eleição" não passou, Aécio Neves, o político patético, corrupto e antiético que caiu junto com Michel Temer, o candidato derrotado de 2014, passou a inflamar a população que nele havia votado para ir as ruas, e para isso contou com um aparato generoso, a maior rede de comunicação do Brasil, a Globo, um grupo de liberecos fantoches chamado MBL e, principalmente, logo o movimento tornou-se gigantesco, dominicais passeatas de indivíduos bem alimentados e ricos (Ou que se imaginavam ricos, no caso da Classe Média alta e média) passaram a gritar "Fora Dilma" e a piada pronta do momento: "A culpa não é minha, eu votei no Aécio".
Os verde e amarelo das ruas e todos os grandes informativos de Massa passaram a pressionar pela tirada do PT do poder. Em meio a uma crise econômica onde muitos indivíduos em ascensão veem, gradativamente, seu poder de compra cair, demissões e regressões em massa, criou-se uma narrativa, lançou-se um sentido sobre tudo, raso como uma poça d'água depois da chuva, palpável para todos e todas que se permitissem ser atraídas pelas paixões hiperbólicas do momento: A culpa de tudo isso era do PT, que governou o país por 13 anos e o colocou no buraco.
Logo a narrativa fascista de "passado glorioso a ser recuperado" tomou diversas formas: Para alguns o Governo FHC tinha feito grandes avanços, que foram destruídos pelo governo Lula-Dilma, já para outros o tempo bom era o da Ditadura (Que para alguns não existiu como "Ditadura") , onde se "tinha ordem e respeito". Os defensores da primeira versão da narrativa se transformaram nos liberais anarcocapitalistas (HAHAHA) leitores de Mises e INIMIGOS de tudo que diz o contrário, os da segunda narrativa tenderam para o fascismo declarado ("Declarado" entre aspas, pois ninguém se admite fascista no Séc. XXI, como diria um amigo meu, em clara ironia: "Fascismo não existe mais, nem antissemitismo, nem homofobia"), esses, mais violentos, ao contrário da moderação cínica dos ancaps e miseístas, deixaram suas paixões saírem, abraçaram seus preconceitos, arranjaram um ponto convergente - Jair Bolsonaro. 
O que eles tem em comum? Pouco, na verdade, se pararmos para pensar teoricamente, porém, na prática, os dois grupos deram as mãos na empreitada de protestar e minar o governo do PT, o bode expiatório.
Mas a narrativa, para ser palpável, precisa de um ponto material, um elemento imagético que consiga dar mais realidade a visão de mundo, a própria Globo cuidou disso, dedicando horas inteiras de sua programação a um sensacionalismo barato para denegrir o ex-presidente Lula por meio da supressão da pressuposição da inocência (Todos são inocentes até que se prove o contrário), criando uma expectativa de sentença e uma culpa "fantasmagórica" sobre o investigado que beira ao cômico (Ninguém sabe do que Lula é culpado, ninguém viu ou ouviu casos de corrupção ligados diretamente a ele, mas culpado ele é... Por alguma coisa). Mas, se Lula é o vilão da narrativa, precisa-se de um herói que o enfrente, a mesma mídia cuidou para que esse herói fosse criado... Sergio Moro. 


Lula deu materialidade a narrativa de bode expiatório
vinculada pela grande mídia

Nesse contexto, a Lava Jato estava mordendo a bunda dos políticos corruptos e lhes enchendo de medo, embora, muito curiosamente, políticos petistas fossem os alvos prediletos. Parar a sangria era necessário, mas quem faria isso? Quem daria o pontapé inicial para o estancamento? 
Eduardo Cunha foi eleito presidente da câmara dos deputados em 2015, logo após sua posse, declarou guerra a todas as pautas progressistas. Sobre ele já pesavam diversas denúncias e sabia-se que este era um velho manipulador por detrás das sombras, um corrupto das antigas. Quando foram descobertas contas na Suíça em seu nome e foi aberto contra ele processo no conselho de ética da câmara, o desespero bateu, a casa havia caído, aparentemente... Porém, não ainda, ao menos. Enfurecido pela falta de apoio do Governo no seu caso, procurou vingança, e essa vingança consistiu em atender ao anseio de toda a escória reacionária do Brasil... Impeachment de Dilma Rousseff. 
Durante todo o processo de impeachment, iniciado em um dos domingos mais vergonhosos da História do país, as máscara da legalidade e o mito do legalismo rondaram, a narrativa de que a constituição estava sendo seguida e que havia crime de responsabilidade (Embora ninguém soubesse exatamente qual).
Enfim, tudo isso é bem sabido, o que importa é que em volta da fúria de Eduardo Cunha, que jogou a constituição no lixo por medo de ser preso, se agregaram os interesses da burguesia e a possibilidade de levar a cabo o projeto "Ponte para o Futuro", que, como todo discurso liberal, é um conto de fadas de letra morta, onde "desenvolvimento" é ligado a precarização para os mais pobres.
Michel Temer virou o rosto do golpe, tanto por estar disposto a isso, como pelo PMDB ser sempre desejoso de poder e estar sempre ligado às estruturas em vigor, como também para dar força a narrativa da legalidade (Quando o presidente sofre impeachment, quem assume de imediato é o vice, não?)
Desde que Michel Temer assumiu, primeiro como interino, depois como presidente de fato, o antes obscuro vice-presidente transformou-se no homem mais polêmico e odiado do país, a esquerda e a centro-esquerda manifestavam (Ao menos na retórica) aversão a ele, enquanto liberais amavam suas medidas e os fascistas intervencionistas o endossavam por "Pelo menos não ser do PT".
Porém, com o avanço das medidas impopulares, ia ficando claro que o "Ponte para o Futuro" é para os mais ricos, coloca nos pobres a responsabilidade pela crise, transforma "direito" e "investimento" em "regalia" e "gastos", a popularidade de Temer, em 2017 baixou como nunca, explodindo agora com a delação.
 Bem... Por que a Globo se voltou contra ele? Será que Temer estava indo devagar demais? Será que sua falta de liderança incomodava quem o havia colocado no poder? Será que ele estava fazendo tudo certinho, mas sua falta de carisma e baixa popularidade se tornaram tóxicas? É difícil responder sem ser conspiracionista, mas que Temer está caindo por ter desagradado à burguesia de alguma forma... Ah, isso ele está.
Difícil responder o que virá, é provável que as eleições indiretas vão colocar alguém disposto a continuar as reformas do "Ponte para o Futuro" com mais firmeza e rapidez, mas não sei se eleições diretas irão resolver muita coisa dentro do contexto de crise e incerteza que o golpe de 2016 instaurou na democracia Brasileira.
O clima é de pós-guerra... Para que o golpe do ano passado ocorresse, a mídia trouxe para fora diversos sentimentos subterrâneos dos brasileiros, destruindo completamente o mito da paz entre etnias e "povo de alegria", exacerbou a fúria, os extremismos, as desigualdades, o racismo, o machismo; o direito foi picotado, dobrado, criaram-se nele precedentes bizarros e improvisos perigosos. A tosca ideia de "homem cordial" revelou-se um equívoco, a democracia brasileira desnudou-se, revelou seus mal resolvidos, suas roupas sujas, suas bases podres desde a gênese. Diante de tudo, nós nos perdemos, ficamos a pensar: Onde isso começou? Quando vai terminar? As narrativas de povo pacífico e amigável, a democracia a là brasileira... Tudo isso não é mais válido, tudo ruiu agora, diante da percepção de que, por anos, o governo nada mais foi do que um campo de negociações dos ricos para os ricos, que maquiavelicamente deixam as sobras para os mais desfavorecidos (Já dizia Marx que o Estado é a mesa de negócios da burguesia). Em 2017 a hipérbole do normal permitiu que esse estado normal fosse visto, a democracia brasileira implodiu-se, mas sendo tudo isso tão antigo é correto dizer que alguma vez houve democracia de fato?
Estamos diante das ruínas, as cortinas caíram.

Bem vindos ao deserto do real....



SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista, novelista, cronista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com








quinta-feira, 27 de abril de 2017

MESÓCLISES E OUTRAS PRESUNÇÕES

MESÓCLISES E OUTRAS PRESUNÇÕES

Nascer do sol visto da varandícula de meu apartamentículo na manhã de 27-4-17 e contendo minha esperança na salvação nacional.

  
Leitura pelo autor:

A minha proposta eu não apresento porque a minha Reforma Política não é o candidato, é o eleitor. Se você tem a massa estragada, por melhor padeiro que você seja, não vai sair um bom pão. E a massa estragada é o eleitor. [...] A partir do momento em que grande parte da sociedade, quando vê um jornal pela frente acha que serve para substituir papel higiênico, você quer que ela tenha poder para decidir o quê? Então, a minha reforma seria do eleitor: só vota quem [...] for votar em mim e tiver o segundo grau completo e algum ganho [...]. E não o contrário, onde eu fico prometendo para um monte de imbecil que o problema do Brasil é educação, é saúde, é falta de trabalho, e vote em mim porque eu vou lutar por isso. Você não vai lutar nada. A reforma é o eleitor: quem não presta no Brasil é 70% do eleitorado. [...] Nós temos de legislar para a maioria, e não para a minoria. A minoria tem de se curvar, obedecer, e ponto final¹.

- Senhor Benito Bardo Junior! ... SenhorBenitoBardoJunior? ... SENHOR BENITO BARDO JUNIOR!
- Oi! Sou eu. Sou eu!
- Lamento, mas informá-lo-ei que a sua submissão avaliativa por médico otorrinolaringologista resultou em um exame clínico fora da normalidade. O senhor, ao ser submetido a avaliação laríngea por intermédio de nasofibrolaringoscopia flexível, não tolerou realizar laringoscopia indireta ou videolaringoscopia por reflexo nauseoso exacerbado. Todavia, apesar da nasofibrolaringoscopia flexível com pregas vocais móveis, sem lesões de cobertura, com boa captação glótica à fonação; o senhor está inapto do ponto de vista da otorrinolaringologia a exercer as funções pleiteadas.
- Ham?
- A priori e não me expresso pelo digno amor e igualdade, mas sim pelo senhor não se mostrar um exemplar com representatividade por condição inadequada a membro de um conjunto de habitantes subserviente e devidamente apto para genuflexão e penhoradamente gratífico dedicar-se à extração com a boca o sumo do órgão masculino de função copuladora presente nos capacitados a ter poder sobre o mesmo conjunto de pessoas que optou entre a diversidade de possibilidades, expressando predileção por certos seres alheios a eles em detrimento de seus similares.
- Ham?
- Pode ir para casa... E boa sorte para encontrar outro local de trabalho.

Enquanto uma dezena de políticos age em seu próprio benefício, a grande maioria dos políticos não sabe sequer o que fazem ali, a única coisa que tem certeza é que seus salários deverão ser iguais ao de seus companheiros. Eles pensam que o seu mal é menor, não sabem que uma pessoa que desvia um centavo daquelas que morrem nas portas dos hospitais, estão condenadas a apodrecer no inferno².



 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às quintas-feiras; e todo domingo no seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras-Português. É pós-graduado em “Metodologias do Ensino da Língua Portuguesa e Literatura na Educação Básica”, “Ensino de Língua Espanhola”, “Ensino de Artes” e “Cultura e Literatura”; autor dos artigos científicos “Machado de Assis e o Discurso Presente em Suas Obras”, “Brasil e Sua Literatura no Mundo – Literatura Brasileira em Países de Língua Espanhola, Como é Vista?”, “Amadurecimento da Criação – A Arte da Inspiração do Artista” e “Leitura de Cultura da Cultura de Leitura”. É Mestrando em Educação pela Universidad Europea del Atlántico. É, por segunda gestão, Secretário da ASSABI – Associação de Amigos da Biblioteca Pública Zumbi dos Palmares (Ipatinga MG). Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).

Escrito no início da tarde de 14 de abril de 2017. E trabalhado entre os dias 25 a 27 do mesmo ano e mês.

PS: Tradução para os ingênuos que, com as palavras que entenderam no texto, não conseguiram criar uma ideia do assunto:
- Lamento dizer que seu exame médico mostra que o senhor não consegue manter algo na boca por mais de meio segundo por sentir muita vontade de vomitar. E por isso não podemos contratá-lo.
- Por que não posso ser contratado? O que isso tem a ver com minha função?

- Não tem ligação com sua função, mas sim porque o senhor, por não ser coxinha, não serve para ficar de joelhos e agradecidamente chupar o pau do governo que o povo escolheu ao eleger alguém elitizado no lugar de alguém do povo. Não digo sexo oral por amor e com respeito, porque este é digno, mas não será admitido por não ser um lambe botas, um puxa-saco.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Em meio ao Caos...

Gato II, por Raquel Barbariz


Ela trabalhava 9 horas por dia de segunda a sábado, em uma de suas voltas para casa um gato, de pupilas dilatadas pela gradativa chegada da noite, começou a segui-la, o magro felino cinzento de olhos castanhos a acompanhou, sabe-se lá porque, até sua casa. A mulher notou que o animal a seguia, mas só se importou quando ele passou a se arrastar por sua perna no momento em que parou para abrir a porta.
Entrou na casa, fechou a porta na cara do peludinho, como se nada tivesse ocorrido, estava muito cansada para se importar com o gatinho cinzento. O animal, porém, era uma figurinha persistente, miou e miou, arranhou a porta, até que a mulher abriu a porta, com olhos fundos de sono. Assim que deu abertura, o felino folgado adentrou.
A mulher chocou-se, correu atrás do animal para expulsa-lo, mas assim que o viu, não conseguiu, o bichano deitou-se sobre um tapete, parecia sentir-se em casa, a jovem, solitária, comoveu-se com a criaturinha que havia se afeiçoado a si, pode-se dizer que sentiu-se honrada, decidiu recompensar o animal, deu-lhe uma bacia de leite, o bichinho logo enfiou o focinho ali.
Terminado o leite, voltou a se deitar, a mulher decidiu deixar, só por hoje, e então o gato ali dormiu. Ela foi para o quarto e o felino ficou ali, sobre o tapete.
Quando acordou pela manhã, foi para o lugar que o gato havia ficado, viu que ele já havia ido embora, havia saído por uma janelinha aberta sobre a porta, ela não se importou muito, mas a lembrança daquele momento como algo irreverente em meio a sua rotina repetitiva permaneceu.
No dia seguinte, porém, a história se repetiu, e no outro e no outro e os dias completavam semanas e as semanas completavam meses. “O que custa uma baciazinha de leite por noite para o bichinho?” – Pensava ela – Dai, logo se afeiçoou, passou, com o tempo, a comprar também ração para o felino que lhe esperava toda tarde e lhe fazia companhia. Era um encontro marcado. Passou a ver no animal um amigo, e amigos eram algo que lhe faltava.
Logo o bichano nem a seguia mais, entrava na casa e a esperava ali mesmo, todas as noites ela o cumprimentava: “Boa noite, gatinho cinza.”, e lhe dava comida, o animalzinho, por sua vez, a recompensava deitando em seu colo enquanto assistia, Eram amigos e ponto. Dois anos se passaram nesta rotina, mas num dia algo diferente aconteceu, o gato não veio, o que a deixou insone. No dia seguinte trabalhou intranquila, pensava no pior, temia o não retorno de seu amigo.
Quando voltou o gato estava lá, mas não era o mesmo, estava fraco, gemendo, mal conseguia ficar em pé, ela o abraçou pela felicidade de o ver ali e para acudi-lo, notou-o gélido, dai perdeu as estribeiras, ficou inquieta, colocou-o nos braços e o levou a um veterinário no shopping da cidade, pagou 200 reais pela consulta e pelo exame para receber a nefasta novidade: Seu querido amigo estava envenenado, não havia solução, o veterinário deu condolências e informou que o bichano só teria, no máximo, mais um dia de vida.
Após insistir por uma solução, desistiu diante das várias consolidações de diagnósticos, levou às, lágrimas, o amigo condenado em seus braços. Não dormiu, passou a noite a assistir o moribundo, que deitou sobre sua cama.
No dia seguinte não foi trabalhar, passou o dia sentada ao lado, na borda da cama, do bichano, tentou alimenta-lo diversas vezes durante o da, mas o felino não comia. O gato foi ficando mais e mais fraco, até o momento que não mais movia os membros, apenas respirava, seus olhos transbordavam agonia, não conseguia miar de dor, mas seus olhos eram puro sofrimento, a iminência da morte seria sentida por qualquer um que visse o felino.
O sofrimento que o gato não conseguia comunicar, a mulher tomava para si, estava a chorar, as lágrimas escorriam por suas bochechas e despencavam para o corpinho peludo do amigo. Ela acariciava a sua cabeça.
– Estou aqui, meu bebê, eu amo você.  – Dizia, em voz chorosa.
O animalzinho fechou os olhos com o carimbo, sua respiração diminuiu até que cessou, a mulher envolveu o corpo em um último abraço, esquentando o frio corpo sem vida, com suas pálpebras a arder pelas lágrimas.

Em meio ao caos...O amor.



SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista, novelista, cronista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com






quinta-feira, 20 de abril de 2017

A CASINHA DA BONECA

LA CUEVA DEL CONEJO.


- Seu atrevido sem vergonha. Passando a mão na minha filhinha.
- Ai, papai. Aiai, papai. Aiaiai, papaiê. Ele passou a mão nusmeu peito.
- Olha, safado, sem vergonha. Minha filhinha está chorando, vagabundo.
- Ai, papai. Aiai, papai. Aiaiai, papaiê. Ele passou a mão nasminha coxa.
- Viu, seu vagabundo. Por que fez isso, seu safado?
- E porque o amor é cego... Tem que apalpar.
- O quê, o quê, o quêêêê... - Alguns segundos de silêncio indignado e continua: Olha! Por sua culpa a minha filha está chorando...
- Né por causa disso não, papai. É porque o senhor chegou na hora que ele ia passar a mão na minha bu... - Vendo a cara do pai: na minha buneeeeca.


En español

- Su descarado sin vergüenza. Aprovechándose de mi hijita.
- Ay, papito. Ay ay, papito. Ay ay ay, papiiito. Él cogió mi pechito.
- Mira, desvergonzado, sin vergüenza. Mi hijita está llorando; su ordinario.
- Ay, papito. Ay ay, papito. Ay ay ay, papiiito. Él cogió mis muslitos.
- Ve, osado. ¿Por qué hiciste eso? ¡Procaz! ¿Por qué la tocó?
- Es… Es porque el amor es ciego… Hay que palpar.
- Qué, qué, quééééé… – Tras unos ratos silenciosos e indignados: ¡Mírala! Por su culpa mi hija lloras…
- No papito, no es por eso. Es porque usted llegó en la horita que él iba a coger mi con… – Viendo la cara del padre: mi conejito de peluuuuuche.


 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às quintas-feiras; e todo domingo no seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras Português; tem quatro pós-graduações e é Mestrando em Educação pela Universidad Europea del Atlántico. É, por segunda gestão, Secretário da ASSABI – Associação de Amigos da Biblioteca Pública Zumbi dos Palmares (Ipatinga MG). Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).


Escrito no meio da tarde de 18 de março de 2017 e trabalhado entre os dias 18 e 20 de abril do mesmo ano. E fora, Temer!

quinta-feira, 13 de abril de 2017

ONDE A GENTE SE VÊ?


O Dia do Hino Nacional Brasileiro é comemorado em 13 de abril. A música do Hino Nacional do Brasil foi composta por Francisco Manuel da Silva em 1822. A letra do Hino veio anos mais tarde, em 1909, escrita por Joaquim Osório Duque Estrada (1870 – 1927).


- Mas você só nos faz esperar. Marcou comigo e não compareceu.
- Desculpe. É que sou assim mesmo.
- E isso lá é desculpa?
- É, quer dizer, não sei... Mas é que sou assim mesmo. Hoje mesmo eu marquei comigo mesmo de ir a um lugar e não fui...
- Bom saber. É que nem você se respeita então não precisarei fazer o mesmo. Até nunca mais.
- A gente se vê lá, então.


 Rubem Leite é escritor, poeta e crontista. Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às quintas-feiras; e todo domingo no seu blog literário: aRTISTA aRTEIRO.  É professor de Português, Literatura, Espanhol e Artes. É graduado em Letras Português; tem quatro pós-graduações e é Mestrando em Educação pela Universidad Europea del Atlántico. Foi, por duas gestões, Conselheiro Municipal de Cultura em Ipatinga MG (representando a Literatura).


 Escrito no início da tarde de 13 de fevereiro de 2017.

domingo, 9 de abril de 2017

Uma surpresa "desagradável"


As duas se conheceram em um barzinho, conversa vai e conversa vem, as pernas por debaixo da mesa começaram a se encostar, um calor distinto do causado pelo refrigerante batizado esquentou os corpos, o diálogo também foi esquentando e as vaginas molharam-se. O final da interlocução tornou-se previsível para ambas.
E assim foi...
As duas foram para um motelzinho próximo. A região era, convenientemente, cheia de motéis, havia um em casa quarteirão mal iluminado, era um espaço de moral frouxa, meninas menores de idade entravam de carro nos motéis com homens mais velhos inadvertidamente, porém não é este o caso dessas senhoritas excitadíssimas, ambas tem mais de trinta anos.
Após o chupa, chupa, cola, cola as duas, suadas, deitam-se, cada uma em um lado da cama, o cheio de xana é exalado por entre os lábios de ambas. O tempo vai passando, as respirações vão ficando menos ofegantes, o silêncio vai se quebrando:
– Você é formada em algo? – Pergunta a de cabelo preto, olhando para o lado.
– História. – Responde a de cabelo castanho.
– Professora, certo?
– Sim, por quê?
– Não, nada, só que geralmente cursos de História são licenciatura.
– Desculpe a reação, estou acostumada a idiotas falando mal da docência.
– Eu não faria isso.
Ficam caladas mais uma vez.
– Você tem grana, né? Dá pra ver pelo carro. – Coloca a de cabelo castanho.
– Acho que sim, minha esposa é uma atriz famosa no teatro, tem uns caches legais e me ajuda. Tenho dificuldade de conseguir trabalho. – Responde a de cabelo preto.
– Você é casada? – Surpreende-se a de cabelo castanho. – Sua esposa não é ciumenta, não é?
– Não, é aberto, fique tranquila.
A de cabelo castanho vira-se para a de cabelo presto, fica a olhar para ela:
– O que está olhando? – Pergunta a de cabelo preto, virando-se para a de cabelo castanho.
– Eu te acho familiar. – Responde a de cabelo castanho.
– Onde fez o ensino médio?
– No Raimundo Ferreira.
– Eu também estudei lá, eu e você estudamos na mesma escola. – Coloca a de cabelo preto, sem surpresa.
– Sério? – Um sorriso se abre no rosto da de cabelo castanho.
– Na mesma sala. – Coloca a de cabelo preto, virando-se para o teto.
– Não lembro de você, deve ter mudado muito, pois tenho memória de elefante.
– Mudei mesmo.
– O cabelo? O rosto?
– Eu mudei tudo.
– Tudo? Isso é filosófico.
– Não, não é, é literal, eu mudei de sexo.
– Ai que foda! Nunca transei como uma mulher transexual. Quem era você na sala quando era, você sabe, homem?
– Acho que só era homem no corpo, mas certo... Eu era o Marcos.
– Marcos? O cara com acne, magrelo e ateuzinho que zoava astrologia?
– Ele mesmo.
– Eu estrou transando com o nojento do Marcos? Eu odiava você! Estraga prazeres do caralho com sua merda de método cientifico e ceticismo! – Exclama a de cabelo castanho, como se falasse de alguém que não está ali.

– Mais ou menos, isso é engraçado! – Afirma a de cabelo preto com um sorriso sarcástico.
A de cabelo castanho é tomada de repulsa, Marcos costumava ser tudo que ela odiava no colégio, vira o rosto bruscamente e vomita no chão, enchendo em pouco tempo o quarto com o cheiro de seu jantar meio digerido.
Engraçado, não teve nojo enquanto lhe chupava a boceta...



SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista, novelista, cronista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com