segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Doutrinação e Totalitarismo



Muito tem se falado sobre doutrinação ultimamente e, infelizmente, tem sido um debate marcado por maus usos do termo e diversas confusões. É importante salientar, antes de tudo, que os termos e nomes as vezes carregam não apenas significados, mas conceitos, e doutrinação carrega não apenas um conceito, mas um modus operandi, um modo de agir que a diferencia das outras formas de passar uma mensagem. Quando se fala em doutrinação é importante ter em mente que modus operandi é este.
Antes de começar a definir o modus operandi e o conceito de doutrinação, lançarei um problema para exemplificar o tom que assumirei nos próximos parágrafos, no último eu responderei ao problema lançado nestes dois primeiros parágrafos introdutórios. Imagine-se em uma Universidade, em uma faculdade de História, por exemplo, o professor tem uma veia mais materialista (No vocabulário historiográfico “materialismo” é sinônimo de marxismo), seu mestrado e doutorado foram nas áreas de História Social e este professor, que é doutor e especialista em um domínio da História, discute com os alunos apenas textos marxistas, nunca dando um contra ponto. Este professor está praticando Doutrinação?
Já tenho minha resposta pronta e já poderia dá-la aqui mesmo, e, antes de continuar, devo avisar aos desonestos praticantes do ad hominem que não sou marxista, sou da História da Leitura, esse é o meu campo de pesquisa, dito isso, vamos começar. Bem, doutrinar e educar tem um fim: Condicionar o sujeito a uma condição, direta ou indiretamente. A educação formal na escola, por exemplo, visa (Em teoria) preparar o indivíduo para a vida em sociedade e suas complexidades éticas e morais, a doutrinação tem basicamente o mesmo fim, preparar o indivíduo para a práticas de algumas formas de ética e moralidade. O que muda, então? Bem, os fins e o modus operandi. Como assim?
Enquanto a educação procura condicionar o indivíduo por meio da compreensão e do ensino lógico, embasado em metodologias didáticas testadas que visam a construção dos sujeitos levando em conta seus potenciais diversos e suas particularidades, a doutrinação vai no caminho oposto, procura tornar o heterogêneo em homogêneo, criar proibições implícitas e instalar uma repressão existencial sobre o ego. Repressão existencial? Sim, a doutrinação é totalitária. O totalitarismo é uma forma de lógica de pensamento e visão de mundo que cria mecanismos de controle que criam nos entes um medo de se contrapor, não apenas devido à repressão física, mas um medo de ir contra uma causa. O totalitarismo lança um conceito de verdade uno e um ideal perfeito a ser alcançado, até nos aspectos mais pessoais da vida: procura incitar uma conduta sexual, uma forma de agir, vestir e se comportar que remeta sempre a construção desse ideal coletivo no coração do ente. Poderia recorrer aos clássicos do totalitarismo e, por consequência, da doutrinação que encontramos na História do Século XX, como o Nazismo, onde os alemães se viam levados a perseguir um ideal de homens e mulheres arianos e sua vida em todos os aspectos devia ser marcada pelo desejo de somar a esse ideal, que dava sentido aos acasos da existência, porém, prefiro me ater a um exemplo mais próximo, o cristianismo.
Uma criança, levada ao catecismo, ensinada, na infância, que a vida na Terra e a realidade têm um sentido, que a História tem um fim, que existe um “homem ideal” e uma “mulher ideal” bem definidos a serem buscados e uma forma de viver “para Deus”. Mas tais coisas não são apenas ensinadas, cria-se toda uma estrutura psicológica de repressão existencial que persegue o indivíduo até quando se encontra entre quatro paredes, como a ideia de inferno e o conceito de que Deus está “olhado a todo momento”, além do desencorajamento as críticas, como o postulado de que essa causa é inquestionável por estar na “palavra sagrada” e que questionar  a Deus é um pecado contra o espírito. Isso é doutrinação, um esmagamento do senso crítico individual por meio de um ensino unilateral acompanhado de formas de repressão existencial que seguem o indivíduo em todos os aspectos de sua vida. Totalitarismo e doutrinação são indissociáveis.
Certo, mas e nosso professor do exemplo dado mais acima? Estaria cometendo doutrinação? Bem, importante salientar que o campo da História, tal qual qualquer outra área do conhecimento, é dono de uma amplitude de muitos temas e especificidades, cheio de domínios, categorias, gêneros e abordagens. Logo, é de se esperar que um Historiador marxista seja especializado em uma metodologia específica e, devido a amplitude desta, acabe sempre tendendo para este lado, afinal, o que os acadêmicos vivem a fazer é “defender teses”, ou seja, um historiador marxista defenderá sim seu método e sempre focará neste em suas aulas. Normal e nada de errado nisso, pois não é doutrinação marxista. Por que? Bem, primeiro, de qual marxismo falamos? Do clássico, do próprio Marx e seu amigo Engels? Ou do de Edward Palmer Thompson? Ou do de Eric Hobsbawn? Ou Lukács? Nem sempre, por incrível que pareça, se fala diretamente de Marx quando se cita Marxismo, é um campo rico e amplo, e olha que nem sou da área, sou uma observadora externa. Segundo, o professor marxista (Seu método de pesquisa, sua especialidade, a lente que usa para analisar os acontecimentos históricos e relaciona-los ao presente) não usa da lógica totalitária inerente a doutrinação quando ensina a seus alunos, eles são livres para, fora dali, procurarem outros teóricos, outras linhas de pensamento, sem sentirem que estão traindo um grande destino humano e um grande ideal de homem e mulher perfeitos (Colocando aqui o exemplo de doutrinação que uso para comparação aqui) e levarem a discussão a sala de aula. No momento que os professores imporem com sucesso a visão marxista a seus alunos até nos campos mais pessoais de suas vidas eles estarão doutrinando, enquanto não se chegar a esse ponto não se pode falar em doutrinar, pois esse exercício (da doutrinação) envolve desencorajar o senso crítico por meio de um medo existencial, como fazem as grandes religiões, por exemplo.
Logo é uma desonesto afirmar que um professor, por só ministrar aulas a partir de uma visão de mundo, é doutrinador, ele é no máximo parcial ou focado demais apenas na sua área, e até esses rótulos são discutíveis.


Obs - Sobre totalitarismo e os usos da doutrinação em massa, recomendo o clássico “Origens do Totalitarismo” da filósofa alemã Hannah Arendt, especificamente o capítulo 2 da Parte III chamado "O Movimento Totalitário".




SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com



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