segunda-feira, 22 de maio de 2017

Michel Temer abandonado ou Bem Vindos ao Deserto do Real... No Brasil.



Enfiaram uma estaca no peito do vampiro...

Ninguém acreditava muito no julgamento da chapa Dilma-Temer, que seria tutelada pelo amigo do peito do golpista, Gilmar Mendes, afinal o juizeco tinha jantares pessoais com o interventor Michel Temer fora de sua agenda, o seu juízo seria, no mínimo, duvidoso. Mas o áudio relevado na quarta feira foi uma grande reviravolta, de repente o vampiro do Planalto cai e é abandonado.
Sim, Michel Temer caiu, não renuncia de teimoso, mas há de sair em breve, afinal, a elite que o colocou no poder está saindo de sua base, Globo, MBL e diversos outros grupos desonestos e apoiadores do golpe que foi direcionado a democracia.
Após a derrota em 2014, a direita, furiosa por ter sido derrotada pela quarta vez, passa a "encher o saco" da administração Dilma, que fica de mãos atadas em diversos momentos, obrigada a atender as reivindicações da burguesia brasileira, mas de forma relutante, haja visto que temia perder sua base eleitora, a classe trabalhadora brasileira, principalmente das regiões Norte e Nordeste. A elite então precisava de alguém que colocasse a crise econômica nas costas dos pobres, e alguém que o fizesse sem pestanejar.
O ano de 2015 transcorreu de forma violenta, extremismos ficaram patentes, "a ressaca da eleição" não passou, Aécio Neves, o político patético, corrupto e antiético que caiu junto com Michel Temer, o candidato derrotado de 2014, passou a inflamar a população que nele havia votado para ir as ruas, e para isso contou com um aparato generoso, a maior rede de comunicação do Brasil, a Globo, um grupo de liberecos fantoches chamado MBL e, principalmente, logo o movimento tornou-se gigantesco, dominicais passeatas de indivíduos bem alimentados e ricos (Ou que se imaginavam ricos, no caso da Classe Média alta e média) passaram a gritar "Fora Dilma" e a piada pronta do momento: "A culpa não é minha, eu votei no Aécio".
Os verde e amarelo das ruas e todos os grandes informativos de Massa passaram a pressionar pela tirada do PT do poder. Em meio a uma crise econômica onde muitos indivíduos em ascensão veem, gradativamente, seu poder de compra cair, demissões e regressões em massa, criou-se uma narrativa, lançou-se um sentido sobre tudo, raso como uma poça d'água depois da chuva, palpável para todos e todas que se permitissem ser atraídas pelas paixões hiperbólicas do momento: A culpa de tudo isso era do PT, que governou o país por 13 anos e o colocou no buraco.
Logo a narrativa fascista de "passado glorioso a ser recuperado" tomou diversas formas: Para alguns o Governo FHC tinha feito grandes avanços, que foram destruídos pelo governo Lula-Dilma, já para outros o tempo bom era o da Ditadura (Que para alguns não existiu como "Ditadura") , onde se "tinha ordem e respeito". Os defensores da primeira versão da narrativa se transformaram nos liberais anarcocapitalistas (HAHAHA) leitores de Mises e INIMIGOS de tudo que diz o contrário, os da segunda narrativa tenderam para o fascismo declarado ("Declarado" entre aspas, pois ninguém se admite fascista no Séc. XXI, como diria um amigo meu, em clara ironia: "Fascismo não existe mais, nem antissemitismo, nem homofobia"), esses, mais violentos, ao contrário da moderação cínica dos ancaps e miseístas, deixaram suas paixões saírem, abraçaram seus preconceitos, arranjaram um ponto convergente - Jair Bolsonaro. 
O que eles tem em comum? Pouco, na verdade, se pararmos para pensar teoricamente, porém, na prática, os dois grupos deram as mãos na empreitada de protestar e minar o governo do PT, o bode expiatório.
Mas a narrativa, para ser palpável, precisa de um ponto material, um elemento imagético que consiga dar mais realidade a visão de mundo, a própria Globo cuidou disso, dedicando horas inteiras de sua programação a um sensacionalismo barato para denegrir o ex-presidente Lula por meio da supressão da pressuposição da inocência (Todos são inocentes até que se prove o contrário), criando uma expectativa de sentença e uma culpa "fantasmagórica" sobre o investigado que beira ao cômico (Ninguém sabe do que Lula é culpado, ninguém viu ou ouviu casos de corrupção ligados diretamente a ele, mas culpado ele é... Por alguma coisa). Mas, se Lula é o vilão da narrativa, precisa-se de um herói que o enfrente, a mesma mídia cuidou para que esse herói fosse criado... Sergio Moro. 


Lula deu materialidade a narrativa de bode expiatório
vinculada pela grande mídia

Nesse contexto, a Lava Jato estava mordendo a bunda dos políticos corruptos e lhes enchendo de medo, embora, muito curiosamente, políticos petistas fossem os alvos prediletos. Parar a sangria era necessário, mas quem faria isso? Quem daria o pontapé inicial para o estancamento? 
Eduardo Cunha foi eleito presidente da câmara dos deputados em 2015, logo após sua posse, declarou guerra a todas as pautas progressistas. Sobre ele já pesavam diversas denúncias e sabia-se que este era um velho manipulador por detrás das sombras, um corrupto das antigas. Quando foram descobertas contas na Suíça em seu nome e foi aberto contra ele processo no conselho de ética da câmara, o desespero bateu, a casa havia caído, aparentemente... Porém, não ainda, ao menos. Enfurecido pela falta de apoio do Governo no seu caso, procurou vingança, e essa vingança consistiu em atender ao anseio de toda a escória reacionária do Brasil... Impeachment de Dilma Rousseff. 
Durante todo o processo de impeachment, iniciado em um dos domingos mais vergonhosos da História do país, as máscara da legalidade e o mito do legalismo rondaram, a narrativa de que a constituição estava sendo seguida e que havia crime de responsabilidade (Embora ninguém soubesse exatamente qual).
Enfim, tudo isso é bem sabido, o que importa é que em volta da fúria de Eduardo Cunha, que jogou a constituição no lixo por medo de ser preso, se agregaram os interesses da burguesia e a possibilidade de levar a cabo o projeto "Ponte para o Futuro", que, como todo discurso liberal, é um conto de fadas de letra morta, onde "desenvolvimento" é ligado a precarização para os mais pobres.
Michel Temer virou o rosto do golpe, tanto por estar disposto a isso, como pelo PMDB ser sempre desejoso de poder e estar sempre ligado às estruturas em vigor, como também para dar força a narrativa da legalidade (Quando o presidente sofre impeachment, quem assume de imediato é o vice, não?)
Desde que Michel Temer assumiu, primeiro como interino, depois como presidente de fato, o antes obscuro vice-presidente transformou-se no homem mais polêmico e odiado do país, a esquerda e a centro-esquerda manifestavam (Ao menos na retórica) aversão a ele, enquanto liberais amavam suas medidas e os fascistas intervencionistas o endossavam por "Pelo menos não ser do PT".
Porém, com o avanço das medidas impopulares, ia ficando claro que o "Ponte para o Futuro" é para os mais ricos, coloca nos pobres a responsabilidade pela crise, transforma "direito" e "investimento" em "regalia" e "gastos", a popularidade de Temer, em 2017 baixou como nunca, explodindo agora com a delação.
 Bem... Por que a Globo se voltou contra ele? Será que Temer estava indo devagar demais? Será que sua falta de liderança incomodava quem o havia colocado no poder? Será que ele estava fazendo tudo certinho, mas sua falta de carisma e baixa popularidade se tornaram tóxicas? É difícil responder sem ser conspiracionista, mas que Temer está caindo por ter desagradado à burguesia de alguma forma... Ah, isso ele está.
Difícil responder o que virá, é provável que as eleições indiretas vão colocar alguém disposto a continuar as reformas do "Ponte para o Futuro" com mais firmeza e rapidez, mas não sei se eleições diretas irão resolver muita coisa dentro do contexto de crise e incerteza que o golpe de 2016 instaurou na democracia Brasileira.
O clima é de pós-guerra... Para que o golpe do ano passado ocorresse, a mídia trouxe para fora diversos sentimentos subterrâneos dos brasileiros, destruindo completamente o mito da paz entre etnias e "povo de alegria", exacerbou a fúria, os extremismos, as desigualdades, o racismo, o machismo; o direito foi picotado, dobrado, criaram-se nele precedentes bizarros e improvisos perigosos. A tosca ideia de "homem cordial" revelou-se um equívoco, a democracia brasileira desnudou-se, revelou seus mal resolvidos, suas roupas sujas, suas bases podres desde a gênese. Diante de tudo, nós nos perdemos, ficamos a pensar: Onde isso começou? Quando vai terminar? As narrativas de povo pacífico e amigável, a democracia a là brasileira... Tudo isso não é mais válido, tudo ruiu agora, diante da percepção de que, por anos, o governo nada mais foi do que um campo de negociações dos ricos para os ricos, que maquiavelicamente deixam as sobras para os mais desfavorecidos (Já dizia Marx que o Estado é a mesa de negócios da burguesia). Em 2017 a hipérbole do normal permitiu que esse estado normal fosse visto, a democracia brasileira implodiu-se, mas sendo tudo isso tão antigo é correto dizer que alguma vez houve democracia de fato?
Estamos diante das ruínas, as cortinas caíram.

Bem vindos ao deserto do real....



SUED

Nome artístico de Línik Sued Carvalho da Mota, é romancista, novelista, cronista e contista, tendo dois livros publicados, também é graduanda em História pela Universidade Regional do Cariri. Militante comunista, acredita no radicalismo das lutas e no estudo profundo de política, sociologia, História e economia como essenciais para uma militância útil.
Escreve ao Ad Substantiam semanalmente às segundas-feiras.
Contato: lscarvalho160@gmail.com








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